Marcus Mubarack: “Tattoos from Paradise”

Conheça o trabalho do artista que se inspira na Cultura Oriental para produzir seus trabalhos

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“ Acho que vivendo num mundo político, todas as coisas, até as mais simples, viram política; não acredito em políticas individuais. Meu trabalho não é sobre mim, é sobre um coletivo, sobre abrir espaço de fala e sobre descolonização.”

“Jesus Insurgente”

Marcus Mubarack (@mubarack.mar) é tatuador no estúdio thINK Art Club, em Porto Alegre. Conheci seu trabalho através do Instagram e, inicialmente, me interessei por ver que era diferente de muitas das tradições de tatuagem das quais eu já estava familiarizada (como a tradição da tatuagem maori ou japonesa, que já se estenderam por toda cultura ocidental). Conhecendo mais as influências de Marcus para a elaboração de seus desenhos, compreendi que tínhamos uma origem em comum em nossas famílias: ambos somos brasileiros descendentes de imigrantes árabes, e isso me fez interessar ainda mais por seu trabalho, já que as tradições em que ele se baseia para a elaboração dos seus trabalhos são principalmente inspiradas na cultura do Oriente Médio.

Compreendo o trabalho de Marcus não apenas com destaque artístico, como também com uma função social bastante forte. Na cultura Ocidental, há uma enorme contribuição da cultura árabe em diversas áreas do conhecimento, inclusive nas artes; mas nem sempre temos consciência delas, assim como ocorre com as influências indígenas e africanas na cultura brasileira. Durante a colonização e o imperialismo, a cultura europeia se instaurou mundialmente se afirmando como o “bom gosto” da arte, esquecendo-se de que se apropriou dos patrimônios materiais e imateriais de diversas culturas não-ocidentais.

Há diversos preconceitos construídos sobre os árabes, judeus e muçulmanos no contexto ocidental, principalmente na Europa. São muitas vezes associados a algo exótico, ou reduzidos aos grupos extremistas. Quantas vezes já não escutamos piadas associando árabes ao terrorismo? Por isso, me fascina o que muitos artistas (não apenas árabes, como diversas minorias identitárias) estão fazendo nos dias de hoje ao trazer as histórias que não foram contadas sobre todos esses grupos; histórias que vão muito mais além da religião, do que suas expressões extremistas ou seus símbolos místicos. Muitas expressões artísticas contemporâneas são voltadas ao decolonialismo — esse nome é dado a qualquer prática do conhecimento que desmistifiquie preconceitos associados aos povos que foram colonizados ou sofreram pela ação do imperialismo. Com a retomada da história dos povos árabes através da imagem, como realiza Marcus Mubarack com suas “Tattoos from Paradise”, vejo uma grande força decolonial, além de ser um trabalho de grande força estética.

Para entender melhor o processo de elaboração dos trabalhos de Marcus, fiz uma entrevista com ele e ele explicou sobre sua origem e suas influências. Dê uma olhada a seguir!

Mari: Começando pela pergunta clássica: como você se interessou por começar a tatuar? Quem foram (e quem são) suas principais referências na tattoo?

Marcus: Acho que nunca foi por interesse, e sim por necessidade; a tatuagem veio como uma ferramenta pra pagar meus estudos, pois venho de família humilde e meu ensino superior era uma escolha minha que dependia de mim. Ensino superior ainda é uma parada muito elitizada, e pro moleque que trabalha em chão de fábrica que nem eu era, ficava difícil competir vaga em universidade pública com quem tem tempo e grana pra estudar, então fui pra uma universidade particular estudar história e antropologia, que era minha área de interesse. Obviamente não concluí minha formação acadêmica.

Quem me ensinou a tatuar foi o amigo de vida Ryan Muterle, que tinha um método de ensino muito bem estruturado baseado na disciplina. Dentro do aprendizado, o respeito pelo tradicional japonês sempre se fez presente, foi uma referência sobre simplicidade e sofisticação na tatuagem.

Outras influências vem de amigos e colegas de trabalho; pessoas com quem eu tive o privilégio de trabalhar e trocar informação. Meus colegas do thINK artclub e os amigos do Covil, do Vértebra, do Labirinto, Casa Caos. Acho que as referências que eu tenho são invariavelmente de expressões do coletivo e não expressões individuais.

“Hell’s Mouth” (“Boca do Inferno”)
“Gilgamesh”

Mari: O que são as “Tattoos from Paradise” (Tatuagens do Paraíso)? Quais são as tradições em que você se inspira pra elaborar seus desenhos?

Marcus: No Paraíso tudo é lindo, imaculado, harmônico, e tudo contém a presença divina e está próximo do Criador. “Tattoos from Paradise” surgiu de uma brincadeira quando o pessoal falava que comentários grandes burlavam o algoritmo, então comecei a comentar “eu achava que tatuagens bonitas como essa só existiam no Paraíso” nos posts dos meus amigos e meio que adotei a brincadeira; várias culturas que tatuavam inclusive falam que levamos nossas tatuagens para o além.
Minhas inspirações vem da tatuagem tradicional americana, japonesa, grafismos étnicos, arte folclórica. Busco trazer elementos da minha cultura, então tudo é muito embasado em arte iraniana, egípcia, assíria; também de artistas como Burhan Kartukly, Helmi El-Touni, Afifa Aleiby, Louay Kayali, Hayv Kahraman, Rawand Issa, Tulip Hazbar. A referência é majoritariamente fora da tatuagem.

“NIQABI”. Ilustração de Marcus Mubarack
“Transmigration”. Flashes de Marcus Mubarack

Mari: Você me falou uma vez sobre a origem dos seus pais e sobre a chegada deles ao Brasil. Queria que você contasse um pouco sobre isso. De que forma suas raízes foram determinantes pra que você escolhesse estudar a cultura árabe na sua profissão?

Marcus: Desde pequeno sempre fui curioso sobre cultura e história árabe; meu foco quando estudava era história e antropologia do Oriente Médio.
Minha família por parte de pai veio da Síria Otomana e do Egito; uns vieram no contexto do Genocídio Assírio e outros no contexto do Oriente Médio pós Primeira Guerra. Acho que além de mero interesse, muito vem de eu ter crescido numa cidade onde todo mundo era branco e que existe uma prevalência impositiva da estética europeia; tudo parecia um chalé alemão, casinha italiana, com uma inexistência de outras expressões culturais que não fossem europeias. Acho que isso também influenciou muito meu trabalho pra adotar uma estética que é igualmente bonita mas que não existe visibilidade na TV, nas artes, em padrões de beleza, em roupas, em conhecimento. Nossos gostos, preferências, referências e conteúdos são todos influenciados pelo colonialismo europeu.

“ מלאכים”

Mari: Vi algumas vezes você falando sobre você enxergar o seu trabalho com tatuagem como sendo um ofício, um trabalho artesanal, e não um trabalho artístico. Queria que você contasse um pouco sobre essa visão.

Marcus: Acho que arte é uma parada muito abrangente, que existe em tudo e que é de livre interpretação; igual Deus. Deus tá em todas as coisas, mas nem todas as coisas são Deus.

Tatuagem pra mim é o que é — um ornamento no corpo -, quem dá o significado pra ela somos nós. Não tenho como negar que meu trabalho tem um elemento artístico, mas no mais básico, ainda é só um ornamento. Não vejo a diferença dessa profissão pra profissão do alfaiate ou do sapateiro: criar uma peça pra um corpo.

Acho que é fácil se perder na ideia do artista, de buscar ser vanguardista em alguma coisa e usar a arte como um meio de expressão puramente individual. As grandes construções da Antiguidade, as estátuas, expressões artísticas do passado são artes sem artista; ninguém sabe quem fez porque não tem nome e não interessava ter, era uma pura expressão do coletivo e seguia o modelo e a forma do coletivo que estava se expressando. Acho que vivendo num mundo político, todas as coisas, até as mais simples, viram política; não acredito em políticas individuais. Meu trabalho não é sobre mim, é sobre um coletivo, sobre abrir espaço de fala e sobre descolonização; técnica artística e conceito são os aspectos menos interessantes do meu trabalho. O ponto a ser atingido é a atemporalidade e a funcionalidade; ser um trabalho bonito, duradouro e apropriado em todas ocasiões.

Mari: Apesar de ser um trabalho que se inspira bastante na tatuagem tradicional na técnica de aplicação, seus desenhos têm um estilo bastante único. Já houve alguma crítica com relação às temáticas que você aborda?

Marcus: A recepção do público é sempre positiva; tanto do público do Oriente quanto do Ocidente. A recepção daqui é muito mais voltada pra estética; do Oriente Médio é muito voltada pra representatividade, por se identificar com o contexto e por ser tatuagem, que tem um outro contexto no Oriente.
Acho que as vezes, aqui, a temática afasta quem tem cautela em se apropriar de elementos culturais de outros povos. E é válido ter isso em mente, porém consumir o produto — seja uma ilustração ou até mesmo a tatuagem — de quem faz parte desse contexto não é errado, e sim uma forma de fortalecer quem busca espaço de fala. Já ouvi que meu trabalho acaba sendo excessivamente político, mas acho que há um padrão duplo de julgamento em discursos como esse; o indivíduo de privilégio que se apropria da estética que a minoria usa pra ganhar voz é ok, mas uma minoria levantando a voz em busca de lugar de fala é um extremista. A dinâmica de pintar a minoria como extremista é um dos mecanismos de silenciamento e opressão do racismo.

“Hashish” (homem beduíno)

Mari: Por fim, falando sobre o impacto do seu trabalho. Existem vários movimentos identitários hoje em dia que buscam desconstruir a visão preconceituosa que existe sobre os povos não-brancos, trazendo de volta os costumes desses povos. Pensando nisso, qual pode ser o impacto de trabalhos como o seu (que buscam outras fontes de conhecimento pra criar) na nossa sociedade?

Marcus: Acho que nada cria impacto sozinho; precisa de pessoas botando esse tipo de ação em prática e pessoas abertas pra consumir esse tipo de conteúdo. Ninguém faz nada por si só. Se meu trabalho soar como a voz de outra pessoa do meu grupo, ele já cumpriu seu papel; se levantou um questionamento pra quem não pertence a esse grupo, também já cumpriu seu papel.
A imagem é um dos métodos didáticos mais eficientes; é muito mais fácil e agradável entender algo quando a abordagem é lúdica e abre espaço pro questionamento. Educar as pessoas é essencial; quem tem conhecimento tá em dívida com quem não tem, e nenhum conhecimento é útil quando é levado pro caixão. O preconceito nasce da ignorância, e a educação é o que segura a violência de acontecer.
De forma alguma quero me considerar ativista porque não acho que ativismo é gerar conteúdo na internet, ficar desenhando ou denunciar preconceito; no fim, tatuagem e ilustração é o que paga minhas contas. Ativismo é parada séria, que exige real dedicação e muito trabalho; quem faz um pouco de tudo, faz muito de nada. Eu a princípio sou professor sem formação acadêmica e me dedico a educar e dialogar com o público que consome meu conteúdo; minha plataforma é o Instagram e minha função é entregar a ferramenta, quem constrói são os alunos.

Veja os trabalhos de Marcus em seu Instagram @mubarack.mar !


SOBRE A AUTORA:

MARI DAGLI
Tatuadora, artista visual e viciada em estudar a cultura artística underground.
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