Tattoo, Arte e Informalidade: pelo que devemos lutar?

Tattoo, arte e informalidade: a tatuagem em tempos de crise. É preciso reformular o que há tempos não estava dando certo na cena da tatuagem.

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Arte criada por Mari Dagli.

Em um dia do mês de outubro de 2019, vi a seguinte notícia: “IBGE: Brasil bate recorde com 38 milhões de trabalhadores na informalidade”. Não é novidade que o Brasil é um país em que a questão do desemprego sempre foi problemática, contando no final de 2019 com 11,8% de desempregados (datando de setembro de 2019, atingindo 12,5 milhões de brasileiros). O número de trabalhadores informais, no entanto, é muito maior, e isso significa que essa parte da população não possui acesso benefícios trabalhistas, como férias, aposentadoria, seguro desemprego e licença maternidade. A profissão da tattoo se insere nessa categoria, assim como na de trabalhador autônomo. Mesmo que seja possibilitada uma certa garantia de direitos através da criação do MEI (Microempreendedor Individual), uma coisa é fato: o tatuador só ganha se sair pra trabalhar. Se não há trabalho, não há dinheiro.

Na área da tatuagem, um mercado estético que vem crescendo enormemente e atraindo muitos adeptos nos últimos anos, as garantias trabalhistas ainda são poucas – acredito eu que um dos principais motivos disso seja a histórica marginalização da profissão, que só a pouco começou a ser vista como nicho de mercado. Pra começar a traçar as dificuldades do processo do tatuador, é necessário pensar em todo o investimento (de tempo e de dinheiro) realizado pelos profissionais desde o início da carreira até começarem a ganhar seu primeiro salário: equipamentos, como máquinas, fonte e pedal; tintas, agulhas e outros itens descartáveis; divulgação, promoção de publicações, adesivos e prints; além dos estudos sobre arte, desenho, cursos de biossegurança e workshops… Essa grande quantidade de investimentos financeiros dificulta o acesso de muita gente à profissão, pois apenas quem pode pagar por tudo isso é capaz de exercê-la. Em seguida, mesmo investindo tanto dinheiro para sua preparação à profissão, o retorno nem sempre é o esperado. A insegurança financeira daqueles que estão buscando se estabilizar na carreira, portanto, é um dos principais problemas – tanto de tatuadores quanto de qualquer trabalhador autônomo.

A imagem construída do tatuador nas redes sociais é a de um paraíso, cercado de dinheiro e rolêzinhos noturnos: uma vida extremamente luxuosa. Afinal, a tatuagem é sim um produto caro, e quando o tatuador tem uma agenda cheia, pode receber muito bem.
Mas quando é que o tatuador tem uma agenda cheia? Sendo um mercado já bastante saturado – principalmente em cidades grandes, como São Paulo –, sabemos que a procura de clientes por profissional se reduz cada vez mais, e isso faz com que o preço do trabalho também se reduza.

Deve-se lembrar que, como qualquer trabalho autônomo que envolva a produção artística – designers, ilustradores, músicos, etc -, depende-se de uma boa demanda para que se possa trabalhar e receber bem.
Então, não: a vida do profissional autônomo que se envolve com arte não é tal glamour (falarei mais adiante sobre a glamourização do trabalho autônomo). Trabalhar com arte é assumir os riscos que existem no fato de ser uma área desvalorizada como fonte de conhecimento e desenvolvimento da cultura, cujos produtores são categorizados como “vagabundos” por boa parcela da sociedade – discurso este legitimado por nosso atual governo conservador, que categoriza desta mesma forma professores, pesquisadores e tantos outros produtores de conhecimento.

Alia-se ao conservadorismo o sistema econômico em que vivemos. O neoliberalismo romantiza as relações de trabalho baseadas no empreendedorismo individual – e assim, ser autônomo, ser seu próprio chefe e fazer seus próprios horários aparece como uma opção “fabulosa” para se adaptar às incertezas da vida e à flexibilidade que tanto almejamos (a drag queen Rita Von Hunty fala perfeitamente bem sobre a precarização do trabalho informal neste vídeo).

Porém, nem tudo é tão bonito quanto a imagem que é vendida, e a informalidade tem o seu preço. Em momentos de crise financeira, os primeiros a serem afetados são aqueles que dependem de uma demanda financeira também autônoma do mercado. A crise no trabalho informal é uma prova da insegurança do livre mercado; no entanto, a necessidade financeira, a não-especialização em outras áreas e a seletividade do mercado de trabalho faz com que essa seja a única saída para muitos trabalhadores.
Vejo amigos meus e profissionais excelentes envolvidos com arte sofrendo com a falta de clientes, alunos e de trabalho, principalmente em momentos de crise como o que vivemos. Isso cria em muitos tatuadores um sentimento de competitividade, de frustração com o próprio trabalho e com a não-produtividade – já que o neoliberalismo te força a se educar sozinho e, assim, joga a culpa em você caso não obtenha os clientes necessários para o seu sustento do mês. Não seria, então, o maior problema de nossas inseguranças um sistema econômico que nos promete tanta coisa, mas acaba nos dando tão pouco em troca?

Vivemos, atualmente, uma crise econômica, política e social que demonstra exatamente como é falha a ideia de que a informalidade no neoliberalismo é um glamour. A crise, resultante de uma doença altamente contagiosa, o COVID-19, dificulta o exercício de qualquer profissão autônoma que dependa do encontro físico entre pessoas. Tatuadores, artistas, músicos, ilustradores sofrem diretamente com o impacto de não poderem sair de suas casas para trabalhar. Sem trabalho, não se recebe. A única esperança é ajudar-nos uns aos outros, seja à distância, seja por pequenas ações. Comprar os produtos, desenhos, CDs, prints e camisetas de seus artistas favoritos é uma forma de apoiá-los. Ter consciência da situação, dentro ou fora de uma crise, é a única forma de conseguir alguma mudança.

Por fim, uma tentativa de ver algo positivo em meio a tantas notícias bizarras: talvez esse seja justamente o momento de reformularmos o que há tanto tempo não estava dando certo. Talvez agora seja o momento de união, seja de trabalhadores formais ou informais, para discurtirmos novas formas de construir nossas profissões.
A arte e a tatuagem podem estar em um melhor lugar, pois são fonte de conhecimento e história herdado por gerações. Por isso, valorize os trabalhos das pessoas que dependem de si mesmas para obter seu ganha-pão, não pechinche, apoie artistas próximos, pequenos produtores e os trabalhadores informais!

Referências:


SOBRE A AUTORA:

MARI DAGLI
Tatuadora, artista visual e viciada em estudar a cultura artística underground.
Sigam no Instagram: @maridagli.tattoo


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