Precisamos Falar Sobre a Solidão da Mulher Tatuadora

Eu poderia ter feito este texto mais bonitinho, dizendo que ser tatuadora é a coisa mais linda do mundo.

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Eu poderia começar este texto falando sobre todas as coisas boas que acontecem no meio da tattoo: os eventos, os colegas de trabalho, os aprendizados, as competições. Mas, hoje, gostaria de me aprofundar um pouco mais no oceano e deixar de enxergar somente a ponta do iceberg que é o mundo da tatuagem.

Mulheres estão a cada dia tomando espaços que sempre nos pertenceram e que, por muitos séculos, nos foram tirados e, como no meio da tattoo, nunca tiveram o trabalho de nos apresentar. Em 2020 as coisas estão finalmente iniciando uma caminhada com mulheres em seus devidos cargos. Não somos mais somente professoras, enfermeiras ou donas de casa. Somos, também, tatuadoras.

Ser tatuadora nos demanda muito tempo para nossos estudos tanto de desenhos, quanto de aplicação na pele. Atendemos clientes presencialmente e via Whatsapp ou formulários, respondemos e-mails, compramos materiais, cuidamos da limpeza e organização de um studio, mantemos contato com outros tatuadores para trocas de aprendizados, passamos um bom tempo preparando nossas publicações nas redes sociais e respondendo os comentários, fazemos stories para que nos enxerguem diante de um algoritmo que está sempre mudando e temos sempre de nos renovar.

Muitas vezes pensamos que nossas 24 horas são poucas. E são. Afinal, além disso tudo, temos de nos alimentar, cuidar de nossa saúde mental, manter uma vida social ativa. Sem contar que muitas são casadas e com filhos! Também podemos citar quando ficamos doentes e precisamos de um dia de folga na cama nos entupindo de remédio para não adiarmos muitos clientes.

Algumas coisas que nos acontecem, somente outras tatuadoras entendem. Somos enxergadas muitas vezes somente quando dizemos nossa profissão. Existem muitos casos de pessoas que sequer nos enxergam até saberem com o que trabalhamos. Somos apenas robôs chamados de “tatuadoras”.

Poucos são os que nos querem por perto por nossa essência, por nosso riso frouxo que muitas vezes é apagado pelo cansaço e o peso de nosso trabalho. Quem nunca teve aquele colega distante que força uma amizade e diz “se precisar fazer algum estudo, estou aqui, viu?!”, mas ele está somente para isso. Esta pessoa nunca está para nos abraçar quando não queremos sair da cama, ou quando, no meio do dia, nos escondemos em algum ponto cego do estúdio para derramarmos algumas lágrimas.

E quem está lá para nos ouvir? Nossos amigos podem não entender nossos cansaços, nossos desânimos, nosso choro por ser uma mulher tatuadora. Muitas vezes recorremos a novos laços de amizades no meio da tattoo que, também, podem não se importar com nossos surtos por sobrecarga e mal nos dão atenção.

Sem contar que é muito difícil engolirmos a ideia de que fomos aceitas em um estúdio por sermos mulheres e não por valorizarem nosso trabalho – dessa forma, acabo entrando em outras pautas como assédio na tatuagem que pretendo ainda falar sobre, mas não tive saúde mental para escrever a respeito e ser mais uma vez mal vista no meio da tatuagem por levantar uma bandeira que chamam de “frescura”. E já dei um spoiler de mais um peso a carregar: a nossa segurança.

Ser uma mulher solteira e tatuadora também tem seus pontos fracos. Afinal, somos solitárias o dia todo, quando temos folga e, muitas de nós, ficamos no estúdio para nos distrairmos porque é muito difícil chegar em casa e não ter ninguém para perguntar como foi nosso dia.

Evitamos conhecer pessoas porque já sabemos que tudo gira em torno de nossos trabalhos e, nas poucas vezes que tentamos, nos decepcionamos exatamente com o que temos medo: a objetificação da mulher tatuadora.

Cada vez que eu escrevo aqui, eu me emociono, pois é muito difícil colocar para fora nossos sentimentos que não contamos a ninguém. Mas sei que muitas de nós sentimos isso e, por tal motivo, é preciso falar a respeito. Por muitas vezes as pessoas fazem com que percamos a fé na humanidade, nos relacionamentos afetivos, nas amizades. Afinal, somos mulheres tatuadoras e sempre vão nos classificar assim.

Sem contar que relacionamentos afetivos podem se tornar tóxicos de acordo com o ciúme do parceiro ou parceira que estiver conosco, pois nossa profissão é uma profissão de contato e também acontece de fazermos tatuagens íntimas em pessoas do gênero do qual preferimos – o que pode acarretar várias discussões entre casais. E, mais uma vez, eu vou me expor aqui contando que já fui proibida de tatuar homens ou atender em studios por insegurança de um ex-namorado. E por isso que é um ex!

Entendem o porquê de eu estar escrevendo aqui?

Viver uma solitude é bom, mas entendermos o porquê dessa escolha é o ponto que quero chegar. Nos afastamos de pessoas que se aproximam de nós sempre por uma classificação, como se fôssemos objetos, como se não fossemos nada além de tatuadoras. Temos sentimentos, temos uma vida enorme para vivermos e sempre somos obrigadas a vivermos sozinhas chamando isso de escolha, pois nossa paz mantém aquela pouca saúde mental viva.

Amar sua profissão não é mesmo fácil, não é, meninas?! A gente se torna cada vez mais refém dela. As máquinas são nossas armas diárias. As agulhas são as balas. E, com pesar no coração, preciso assumir que nossas tintas são os amores líquidos que insistem em rodear a vida de uma tatuadora mulher, trazendo, assim, uma solidão forçada que, com o tempo, aprendemos a abraçar e chamar de solitude. Tenho certeza de que Bauman se orgulharia da analogia brega que acabei de fazer, mas usamos nossos amores todos os nossos dias de trabalho, depositando sempre um pouco de nós em cada cliente, pois só eles fazem, hoje, com que nos sintamos queridas.

Eu poderia ter feito este texto mais bonitinho, dizendo que ser tatuadora é a coisa mais linda do mundo. Realmente é lindo trazer histórias para a pele, mas eu preciso falar da solidão da mulher tatuadora. Nós sentimos isso. E eu precisava falar por todas nós.

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Capittoo
Tatuadora em São Paulo, formada em Letras, fazedora de post no Instagram que fala por cada mulher dessa profissão.

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